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Confira o artigo de Dom Redovino: Deus não mata, mas castiga!

30 novembro 2012 - 11h43



Era com esta “sentença” que, nas travessuras ou rixas de crianças, nos dirigíamos aos companheiros que, após nos terem soqueado, “pagavam o pato” caindo em alguma armadilha. O “julgamento” fazia parte da cultura que então vigorava, transmitida de geração em geração pelos pais, catequistas, professores e padres. Deus tudo via e tudo anotava. Nada lhe escapava. E, no momento certo, nos pegava no pulo: «Agora você vai pagar por tudo!». Era um Deus feito à imagem e semelhança de pessoas que, dominadas pela insegurança e pelo sentimento de culpa, recorriam a ele para manter a autoridade e a ordem que não conseguiam com suas próprias forças.

A própria Bíblia se prestava para a distorção. Citavam-se centenas de textos que falavam do furor, da vingança e do castigo de Deus. Um Deus em tudo semelhante ao que de pior existe no coração humano! Até mesmo nas referências que se faziam aos erros cometidos pela justiça humana, dizia-se tranquilamente: «A justiça divina é diferente: ela tarda, mas chega!», para significar que o que não se paga aqui na terra, se paga na eternidade...

Um monge inglês, Ian Petit, escreveu um livro com um título significativo: “Deus não está zangado”. Depois de ter carregado consigo o terror que lhe havia sido impingido desde a infância por um Deus visto como implacável e sempre ameaçador, no final de sua vida fizera uma descoberta que o tornara livre e feliz como nunca antes acontecera: passou a se sentir amado sempre – não apenas quando “comportadinho” –, já que Deus deixaria de ser Deus no momento em que deixasse de amar.

O monge tinha razão. Se Deus existe, como atestam a fé e a razão, não pode ser sádico, divertindo-se com a ignorância, a teimosia e os erros do ser humano e castigando implacavelmente os transgressores de leis impostas por ele; nem masoquista, criando o homem livre e autônomo, para, em seguida, vir ele próprio aqui na terra e sofrer em decorrência dos pecados cometidos pelo uso inadequado que sua criatura faz da liberdade.

«Deus ama tudo o que criou» (Sb 11,24) e acompanha com carinho cada gesto ou situação de seus filhos, mas respeita as leis que ele mesmo imprimiu no cosmos e no planeta Terra. Sem nunca estar ausente, sua intervenção acontece muito mais no coração do homem do que nas consequências de suas opções e atitudes, a não ser quando julga necessário intervir com um “milagre” ou, de acordo com o dito popular, para «consertar de noite o que suas criaturas estragam de dia».

Por isso, é blasfêmia afirmar que Deus se vinga ou castiga. O que ele fez e continua fazendo é convidar, incentivar e auxiliar o homem a fazer bom uso de sua liberdade: «Quem dera que meu povo me escutasse e andasse em meus caminhos! Mas ele não ouviu a minha voz e Israel não quis me obedecer. Deixei, então, que seguissem seus caprichos, abandonei-os ao seu duro coração» (Sl 81,12-13). Se existe castigo por parte de Deus é permitir que seus filhos se afastem dele, em busca de sua própria ruína. Mesmo assim, por «não querer que ninguém se perca» (Jo 6,39), mas que «todos tenham vida em abundância» (Jo 10,10), ele é o pastor que procura sem descanso a ovelha perdida e o pai que sempre acolhe o filho pródigo (Cf Lc 15).

Se o Antigo Testamento apresenta centenas de textos que falam da ira de Deus, contém também outros tantos muito diferentes: «Minha alma, bendize ao Senhor, não esqueças nenhum de seus benefícios! É ele quem perdoa todas as tuas culpas e cura todas as tuas enfermidades! O Senhor é misericórdia e compaixão, paciente, bondoso e compassivo. Não fica sempre repetindo as suas queixas, nem guarda eternamente o seu rancor. Quanto os céus por sobre a terra se elevam, tanto é grande o seu amor aos que o temem! Como um pai se compadece de sues filhos, o Senhor tem compaixão dos que o temem!» (Sl 103,2-3.8-9.11.13).

Mas onde a verdadeira face de Deus resplandece em todo o seu fulgor é no Novo Testamento: «Se Deus cuida dos pássaros do céu e veste a erva do campo, não fará muito mais fará por vós, gente de pouca fé? Quem de vós dará ao filho uma pedra quando ele pede um pão? Ou uma cobra quando ele pede um peixe? Se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o fará o vosso Pai celeste!» (Mt 6,30; 7,9-10).


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