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A desconstrução de imagens: Lula e o PT na berlinda, por Wilson Biasotto

14 janeiro 2013 - 09h57



Parafraseando Vinicius que disse em um de seus magistrais poemas, que “a gente não faz amigos, reconhece-os”, eu digo-lhes que os semelhantes também se reconhecem, mesmo que não tenham contatos pessoais.

Uso o verbo reconhecer porque entendo que as pessoas que vivem realidades semelhantes são capazes de experimentar sentimentos comuns. Ninguém melhor que o boiadeiro sertanejo do nordeste para entender a vida de seu semelhante, mesmo que a distância das caatingas os separe por centenas de quilômetros. Da mesma forma poderia ter me referido ao camponês paulista, ao tropeiro mineiro, ao campeiro gaúcho, aos médicos, advogados, enfim, poderia dizer também que a dor de uma mãe que perde um filho para as drogas na Europa não deve ser diferente daquela que perde um filho na América ou na Ásia.

Estive algumas vezes em contato com o ex-presidente Lula, inclusive no Palácio do Planalto quando ele bateu o martelo para a criação da UFGD, mas nunca mantive com ele um diálogo mais profundo sobre quaisquer temas, muito menos de nossa trajetória de vida. No entanto, compreendo Lula, da mesma forma que compreendo a presidente Dilma, assim como sou capaz de entender a alma do pedreiro, do trabalhador rural, do sindicalista, do professor e ainda daqueles que sendo pobres alcançaram algo na vida e dos que nasceram e cresceram sem nada ter. Entendo-os por ter origem na mesma tribo ou em tribo semelhante a deles.

Por outro lado entendo também que esse sentimento de reconhecimento de classe social é o mesmo para os membros da elite econômica brasileira. A elite econômica tem pensamento de direita e a maioria dos detentores do poder midiático (também de direita), são, a meu ver, incapazes de compreender e muito menos de aceitar que pessoas vindas das camadas populares consigam alcançar o poder e consagrarem-se no seu exercício.

Trata-se da formação de mentalidades, ou seja, da formação de um determinado modo de pensar não exclusivamente de um indivíduo, mas de toda a classe social na qual está inserido. No mundo em que vivemos, como já disse acima, a elite dominante é reconhecidamente de direita e, por via de consequência, tem uma maneira peculiar de pensar a realidade em que vivemos. E, sendo hegemônica, é capaz de mistificar a classe trabalhadora. Como ensina Cornelius Castoriades, ao mistificar a classe trabalhadora, não deixa de mistificar-se a si própria. Ou seja, de tanto insistir em persuadir os dominados de que isso ou aquilo é bom, acaba acreditando que seja bom mesmo.

Vou dar um exemplo simples, mas claro. Na época Colonial, quando a elite dominante brasileira trouxe as primeiras plantações de manga para o Brasil e não queria compartilhar a fruta com os escravos, passou a disseminar entre eles a falsa ideia de que não se podia misturar manga com leite. Ora, sendo o leite cotidianamente consumido pelos escravos, e eles, acreditando que a manga fazia realmente mal, preferiam ficar com o leite que lhes dava mais sustância. De tal maneira essa mentira foi difundida que as gerações seguintes, inclusive as da própria elite dominante, passaram a crer que realmente manga e leite faziam mal.

Passando de um caso simples a uma experiência mais complexa posso afirmar sem medo de equivocar-me: a elite econômica dominante no Brasil, de tanto tentar impor à classe trabalhadora a ideia de que o capitalismo é a melhor forma de organização acaba acreditando, ela própria, que seja de fato.

Detendo em suas mãos o poder econômico e midiático essa elite faz o possível e o impossível para não permitir mudanças no status quo. Daí inclusive a resistência à Lula, que precisou candidatar-se quatro vezes seguidas para poder chegar à presidência, e somente conseguiu quando apresentou uma Carta à Nação assumindo posturas muito menos ortodoxas em relação às que defendeu na campanha de 1989.

De qualquer forma a obra de Lula em seus dois mandados deu aos menos favorecidos conquistas sociais importantes, tanto pela diminuição da pobreza, com o aumento de empregos como com a bolsa família e as cotas para as universidades e em empregos públicos. Enfim, mesmo tendo se comprometido com as políticas liberais, avançou nas políticas sociais.

Por seu lado, a direita brasileira sempre foi grande mestra em escrever a história à sua moda, a história das elites conservadoras, e não mudou, atualmente faz tudo quanto lhe está ao alcance para desconstruir a imagem de Lula, de modo que os menos avisados possam mudar de opinião a respeito da própria história de nosso presidente operário. Além disso, dois outros motivos contribuíram para intensificar a campanha anti-Lula: o fato de ele poder influir nos resultados das eleições municipais, como ocorreu em São Paulo, por exemplo, e, ainda mais significativo: os críticos viscerais de Lula imaginavam que ele seria o candidato petista para 2014, então desqualificá-lo seria abrir caminho para um possível candidato de direita, provavelmente Aécio Neves.

Quanto a influência nas eleições municipais, agora Inês é morta, Haddad já assumiu a prefeitura do maior colégio eleitoral do Brasil. Quanto a eventual candidatura para 2014, o cenário também mudou. As últimas pesquisas apontam a atual presidente Dilma como favorita absoluta para o pleito de 2014, superando o próprio Lula. Por isso então as críticas mais severas passam a ser endereçadas a ela. Por exemplo, fala-se atualmente em “pibinho” da Dilma, ou seja, o Produto Interno Bruto brasileiro cresceu pouco no mandato da presidente. Ora, esquecem-se de que diante da crise internacional obter um PIB positivo já é um grande esforço do governo que deveria ser elogiado, não criticado negativamente. E dizer que o restante da América Latina teve resultados melhores não significa que qualquer desses países possa se comparar ao espetacular desenvolvimento brasileiro dos últimos anos. Mas, enfim, o que desejo dizer é que o PIG (Partido da Imprensa Golpispa) e os políticos de direita estão deixando de usar apenas Lula como alvo, aliás, começam a usar de metralhadora giratória.

O julgamento do “mensalão”, por exemplo, visando atacar o conjunto do Partido dos Trabalhadores, ocorreu muito antes de o Supremo Tribunal ter dado o seu veredito, pois a metralhadora do PIG (Partido da Imprensa Golpista) já havia abatido os prováveis envolvidos (aliás, um julgamento realizado exatamente às vésperas das eleições municipais). Por sua vez, a presidente começa a ser alvo, como já afirmei, sendo que existe uma estratégia para a desconstrução de sua imagem. Como o seu índice de popularidade é elevadíssimo, o PIG e a direita atacam pelos flancos, tentando “comer pelas beiradas, como se faz com angu quente”. Como dizia antiga marchinha carnavalesca “vou lambuzando selo, se colar colou”. E a metralhadora continua girando tentando atingir o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, um dos melhores Ministros da Educação que o Brasil conheceu, já em seu início de governo. Segundo o PIG, o prefeito já teria mudado o seu discurso após a posse.

Não creio, sinceramente, que essas críticas ao prefeito paulista sejam feitas porque o PIG e a direita já identifiquem nele um eventual candidato petista à presidência após o segundo mandado de Dilma, que me parece irreversível, mas porque desconstruir a imagem de Haddad significa atingir Dilma e Lula na campanha para 2014.

Mas, apesar de todas as ofensivas, inclusive com o uso da Internet, por meio de e-mails falaciosos, a verdade é que o PIG e a direita, não estão conseguindo atingir o objetivo de desconstrução da imagem dessas novas lideranças brasileiras que representam também um PT novo, robusto e capaz. Isso porque os trabalhadores brasileiros estão, tanto quanto eu, reconhecendo-se na imagem dessas figuras.

Suas críticas são bem vindas: biasotto@biasotto.com.br

(*)Membro da Academia Douradense de Letras; aposentou-se como professor titular pelo CEUD/UFMS, onde, além do magistério e desenvolvimento de projetos de pesquisas, ocupou cargos de chefia e direção.

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