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SETEMBRO AMARELO

Sem perceber sinais, Silvânia perdeu a filha e hoje reconhece a necessidade da escuta

20 setembro 2019 - 10h15Por Vinicios Araújo

Há quem diga que a depressão é uma doença sutil e silenciosa, mas a cuidadora de idosos Silvânia Siqueira Silva, de 52 anos, descobriu da pior forma que talvez esta seja a mais gritante das patologias. 

A douradense vive há três anos a falta da filha caçula, Vanessa Siqueira, que em 2016, aos 16 anos, tirou a própria vida nos fundos da casa da família. “Foi tudo muito rápido e até hoje não encontrei as respostas para isso. Ainda é tudo muito duvidoso pra mim”, relata a mãe. 

Uma jovem tida como alegre, despojada e sempre rodeada de muitos amigos, Vanessa se foi e deixou um vazio na vida quem a amava que infelizmente o tempo não vai ser capaz de suprimir. 

Segundo a mãe, a menina era bastante apegada com quem amava. “Se uma amiga fazia um bolo e dava para outra, ela já ficava triste”, relembra. 

Silvânia recorda que a caçula era a sua maior companheira. “Foi horrível, foi como se meu coração estivesse sendo partido, tanto que na hora eu ainda falei ‘meu coração, meu coração’, porque realmente era isso que ela era. Ela era minha companheira, minha caçula. Eu fiquei muito mal e ainda me sinto. Eu entendi, mas ao mesmo tempo não consigo entender”, conta. 

Tem dias que Silvânia ainda se pega chorando no quarto, a saudade da filha. A cada ano, quando chega o mês de setembro, a douradense sofre a dor da perda, que no próximo dia 29 completa três anos. 

Ao mesmo tempo, durante ações de conscientização do Setembro Amarelo, a mulher percebe que tudo poderia ter sido diferente.

“Se eu pudesse voltar no passado, vou te dizer: ela estava aqui viu. Aprendi com tudo isso como é importante ouvir os filhos, perceber as mudanças de comportamento, tentar entender os momentos de raiva, de grosseria, ser mais atenciosa”, afirma. 

“Tem gente que não se abre com os pais porque sabe que os pais não estão nem aí. Se eu puder dar um conselho: escutem seus filhos, olhem pra eles, busquem entendê-los. Às vezes a filha chega e fala: ‘mãe eu tenho um namorado’, e a mãe já reage: ‘não quero saber disso, esquece essa história’. Eu acho que é preciso escutar mais, chegar nos filhos e conversar. Buscar saber o porque estão nervosos, agressivos. Alguma coisa deve estar acontecendo”.

Silvânia conta que há um mês decidiu doar os pertences da filha para instituições de caridade. Até então ela não queria se desprender das lembranças. “Era como se eu pudesse estar com ela ali”, explica. 

Porém, na tentativa de manter a proximidade com as coisas de Vanessa, a mãe não conseguia superar o luto. Hoje, depois de ceder e dar uma chance para que o tempo possa pelo menos cicatrizar a dor da perda, Silvânia se sente mais leve. 

“A saudade jamais vai embora, o desejo dela estar aqui comigo nunca vai sumir. Mas, hoje eu me sinto mais leve, meu coração não fica apertado mais angustiado. Minha filha sempre será meu amor, nunca deixará de ser a minha caçulinha”, afirma.


A mulher encontrou nas fotos das redes sociais, no álbum revelado e na tatuagem que fez de Vanessa, a forma de estar perto da filha. 

Emocionada ela relata se sentir culpada por um desentendimento dias antes de Vanessa tirar a própria vida. Ela conta que tentou buscar ajuda na igreja, mas não foi suficiente. A douradense ainda não se dispôs a ir em busca de profissionais para auxiliá-la, mas entende a importância e eficácia disso. 

“Ela me deixou uma carta dizendo que não suportava mais a dor que sentia. Ela me ligou antes de fazer aquilo, dizendo que me amava muito, e eu achei que ela tinha melhorado depois da nossa discussão”, recorda. 

Conforme o Dourados News mostrou ao longo desse mês, o suicídio é a alternativa extrema encontrada pelo indivíduo para acabar com a angústia insuportável. No entanto, conforme a psicanalista Vanessa Figueiredo, ouvida pela reportagem durante a série de matérias alusivas ao Setembro Amarelo, há formas de superar esse sofrimento com tratamento baseado na escuta analítica. 

“A morte não é um desejo, porque não se sabe o que é a morte. Ela é o desconhecido. O indivíduo que tira a própria vida não quer a morte, quer acabar com a dor. Mas, há formas de amenizar essa angústia sim, através da escuta, da terapia, onde o paciente consegue compreender a angústia do existir e enxergar novas possibilidades para o viver”, explica a profissional.

Segundo o Ministério da Saúde, é preciso estar atento aos seguintes sinais:

- O aparecimento ou agravamento de problemas de conduta ou de manifestações verbais durante pelo menos duas semanas;

“Essas manifestações não devem ser interpretadas como ameaças nem como chantagens emocionais, mas sim como avisos de alerta para um risco real”, ressalta o Ministério.

- Preocupação com sua própria morte ou falta de esperança;

“As pessoas sob risco de suicídio costumam falar sobre morte e suicídio mais do que o comum, confessam se sentir sem esperanças, culpadas, com falta de autoestima e têm visão negativa de sua vida e futuro. Essas ideias podem estar expressas de forma escrita, verbal ou por meio de desenhos”, explica.

- Expressão de ideias ou de intenções suicidas.

Comentários como "Vou desaparecer”, “Vou deixar vocês em paz”, “Eu queria poder dormir e nunca mais acordar”, “É inútil tentar fazer algo para mudar, eu só quero me matar”, revelam um risco iminente ao suicídio. 

- Isolamento

“As pessoas com pensamentos suicidas podem se isolar não atendendo a telefonemas, interagindo menos nas redes sociais, ficando em casa ou fechadas em seus quartos, reduzindo ou cancelando todas as atividades sociais, principalmente aquelas que costumavam e gostavam de fazer”, alerta o Ministério da Saúde.

AJUDA EMERGENCIAL

Hoje o CVV - Centro de Valorização da Vida oferece um canal de atendimento emergencial para quem está sofrendo. A organização realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email e chat 24 horas todos os dias. O telefone é o 188.

Vale ressaltar que esta é uma medida paliativa e não descarta a necessidade de procurar um profissional psicólogo e/ou psiquiatra. Esses são os principais agentes de intervenção em casos de depressão.

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