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ENTREVISTA

Paternidade: qual a sua real importância?

12 agosto 2018 - 09h00Por Vinicios Araújo

O Dia dos Pais chegou e o Dourados News fez questão de saber de fato qual a importância da figura paterna para o desenvolvimento infantil aos olhos da psicanálise, ciência dedicada a análise e estudo das experiências do inconsciente humano por meio de métodos terapêuticos. 

Para isso entrevistamos a psicóloga douradense Vanessa Figueiredo que nos mostrou quais os impactos da ausência paterna na educação da criança. Confira!

Definição 

“Aos olhos da psicanálise a metáfora paterna é a transmissão da lei, que acontece por meio da linguagem, das palavras que dizemos ao bebê antes mesmo deste nascer, já falamos do sujeito, do filho, já o imaginamos”, define a psicanalista.

Ela ressalta que, sendo transmitida pela linguagem, a paternidade toma o caráter de função, podendo ser executada por qualquer pessoa. Essa "função" paterna, de acordo com Vanessa, não está ligada exclusivamente com a imagem masculina, e pode ser exercida por qualquer membro da família, ou pessoa que tenha laço com a criança.  

“Não é necessariamente pela figura do homem que isso é cumprido, até porque é necessário o desejo da mãe para que isso seja realizado, desejo que esse bebê vire um sujeito desejante”, explica a especialista. 

“A paternidade tem a função de estabelecer a lei. São basicamente as regrinhas que vamos ensinando a criança a respeito de educação e convivência em sociedade. Dentro disso podemos destacar o que pode e o que não pode fazer, o que deve e o que não deve comer, como se comportar com os coleguinhas na creche, como deve ser a relação com o professor, como lidar com as diferenças sociais, ou seja, tudo o que está relacionado a um regimento determinado”, disse Vanessa.

Para a especialista, a ausência da figura paterna pode desencadear no desenvolvimento da criança um caráter corrompido. 

“Pessoas que cresceram sem limites, que não tiveram um lei imposta ainda quando eram crianças e que não foram ensinadas a como se portar no meio social tendem a despertar em sua personalidade um caráter impulsivo, violento, inconsequente e por aí vai. O que nós precisamos ressaltar é que a paternidade funciona como um eixo de equilíbrio entre o impulso e a razão”, afirmou a terapêuta.

Principais impactos da ausência paterna

Além do que já foi citado acima, a ausência da paternidade, segundo estudos da psicanálise, pode ocasionar alguns impactos indesejados na trajetória de vida do sujeito. Entre eles:

• insegurança, que se revela em vários momentos da vida;

• sentimento de abandono;

• incapacidade de desenvolver habilidades essenciais para a convivência social;

• comprometimento na saúde;

• tendência a vícios e compulsividades;

• dificuldade de se relacionar;

• sentimento de incapacidade ao tornar-se pai.

Além disso, uma pesquisa do psicólogo americano Bruce Ellis revelou que a ausência paterna pode também influenciar no amadurecimento sexual das meninas mais rápido. Em seu estudo, Ellis observou 173 garotas desde a idade pré-escolar até a sétima série, tendo percebido que aquelas que conviviam satisfatoriamente com os pais durante os cinco primeiros anos de vida entraram na puberdade mais tarde.

Acovardamento masculino

Como citado acima, a figura paterna pode muitas vezes não estar diretamente relacionada à imagem masculina, sendo substituída pela mãe, por avós ou outras referências para a criança. 

A psicanalista Vanessa Figueiredo ressaltou que atualmente, é comum que o gênero masculino dispense a responsabilidade de exercer a paternidade sobre o filho. E isso ocorre até mesmo com pai presente na casa. 

“Na verdade a função paterna é transmitida através da linguagem. Se o sujeito tem a palavra, a determinação, isso tudo é a função paterna, seja a mãe, a avó, a babá, a professora, etc...”, afirmou. 

A terapêuta destaca que atualmente os padrões de família são diversos, podendo então definir esse grupo como “uma organização unida por amor”.

Identidade sem registro paterno

De acordo com o último senso de escolaridade do Conselho Nacional de Justiça, 5,5 milhões de crianças brasileiras não possuem o nome do pai na certidão de nascimento. Em Mato Grosso do Sul, o número registrado foi de 53.741 alunos com espaço ‘paternidade’ da Certidão de Nascimento em branco.

Diante dessa realidade, em 2015 o CNJ desempenhou uma mobilização nacional através do programa Pai Presente para garantir o registro espontâneo de paternidade nos documentos infantis. Na época, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul registrou 862 reconhecimentos da função. 

“Nesse dia dos pais é preciso parabenizar muito além dos homens de fato. Essa data precisa ser voltada a quem desempenha o compromisso de ensino, correção, provisão na vida da criança, que a instrui para a vida. Seja a figura o pai, a mãe, ou qualquer outra referência. O importante é formarmos uma geração paternalizada”, concluiu Vanessa. 

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