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DOURADOS VENEZUELANA

Imigração venezuelana revela um Brasil ‘de costas’ para a América Latina

14 agosto 2019 - 10h58Por Vinicios Araújo

Na série Dourados Venezuelana, o Jornal Dourados News já trouxe alguns dados importantes sobre a segunda maior imigração do mundo, entre eles que já são cerca de 4 milhões de refugiados em vários países, cerca de 168 mil no Brasil e em Dourados, a 2ª cidade que mais recebeu migrantes na Operação Acolhida, devem viver entre 1200 a 1500 venezuelanos. 

Na reportagem de hoje, traremos uma análise importante a ser feita: o Brasil ‘de costas’ para a América do Sul por meio da língua. Junto com a Guiana e o Suriname, o país integra o grupo de países do continente a não ter como idioma oficial o espanhol. Na imigração venezuelana, que trouxe esperança para milhares de pessoas, a dificuldade de falar e ser compreendido é a maior dor para quem só quer poder se integrar a uma nova realidade.

Mestranda em Letras pela UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), e também refugiada da Venezuela em Dourados, Rosana Daza avalia que a dificuldade de comunicação cria fronteiras entre as pessoas e abre margem para interpretação pessoal sobre a realidade do outro. 

“Eu acho que está ocorrendo uma mudança e isso é inevitável. As pessoas agora podem obter o espanhol como idioma alternativo. Por muitos anos, apesar de ter o Paraguai aqui perto, não havia se causado tanto impacto ou necessidade esse assunto da língua. Mas agora com os venezuelanos aqui, que são quase 1500, não tem como. Nossas crianças provavelmente terão relacionamentos com brasileiros e vai ser preciso misturar as culturas. Eu acho que o povo douradense precisa prever o que vai acontecer nos próximos anos. A gente precisa superar essa grande dificuldade, afinal, se a gente não consegue se comunicar e expressar o que há aqui [no coração], você não vai realmente me conhecer. Você não vai conseguir compreender o que eu sinto e penso, e se você não entender, você vai interpretar o que você acha que eu penso e quero. E eu acho que isso limita, cria uma fronteira inicial que precisamos apagar”, disse.

Há quatro anos em Dourados, Rosana garante que ainda não consegue se expressar e comunicar-se satisfatoriamente. Recentemente ela escreveu um livro de poesias, “Mujer inmigrante”, que relata em versos de poesia a travessia de venezuelanas refugiadas do país. O livro foi escrito em espanhol e traduzido para o português.

Durante entrevista ao Dourados News, a escritora disse que não conseguiria expressar em palavras seus mais profundos sentimentos fugindo da língua de origem.

“É muito lindo a gente poder escutar o outro em sua língua, em sua forma, e conseguir entender. É isso que é interessante em nossa nova realidade. É uma lástima os governos priorizarem tanto o inglês. Eu acho que não estamos aqui para excluir a ninguém, mas existe uma realidade que não podemos negar. Precisamos de políticas públicas onde a língua seja uma maneira de integrar esse Mercosul de forma obrigatória. Tanto o espanhol como o português deveria ser uma prioridade política-linguística do povo. O Brasil fica limitado sem poder se relacionar com os países vizinhos”, disse.

Para o professor do curso de Ciências Sociais da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), Marcos Antônio da Silva, doutor em estudo de integração da América Latina, a imigração venezuelana veio mais uma vez pressionar o Brasil a se abrir para os demais países da América do Sul.

Ele avalia que, a superação da barreira da língua é uma necessidade emergencial.

“A nossa relação com a América Latina é marcado por fronteiras invisíveis. O Brasil sempre deu as costas para a América Latina. Basta ver mesmo no caso de Dourados, onde temos uma forte presença paraguaia, no entanto eles são vistos mais como uma coisa exótica ou à parte, do que membros da sociedade douradense com direitos e que fazem parte dessa sociedade. O Brasil, desde os anos 90 com o Mercosul, se discutia nas escolas a necessidade de ensinar o espanhol e o inglês como uma segunda língua optativa. Então, novamente somos forçados a nos abrirmos para a América Latina e entender que fazemos parte da América Latina. E para que possamos conviver, trocar experiência ou se relacionar com os demais latino americanos precisamos superar a barreira da língua”, disse.

O especialista avalia que isso trará um impacto positivo para a população douradense, que terá a oportunidade de ampliar a perspectiva cultural já determinada. “Nós podemos conhecer outra cultura dentro desses termos de língua, de visão de mundo”, concluiu.

A reportagem procurou a Secretaria Estadual de Educação para saber a realidade do ensino em espanhol em Mato Grosso do Sul e se há alguma discussão sobre o fomento da língua majoritária no continente latino-americano, considerando a migração em massa de venezuelanos do norte do país ao estado. 

Em resposta, a SED afirma que, conforme a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a disciplina obrigatória no Ensino Médio, nas escolas estaduais de Mato Grosso do Sul, é a Língua Inglesa. O espanhol só é obrigatório na grade das escolas em tempo integral, de Ensino Médio. 

O método, intitulado Escola da Autoria, possui 27 unidades em todo o Mato Grosso do Sul, atendendo uma média de 7.800 estudantes. Em Dourados a Escola Estadual Antônia da Silveira Capilé, na região do Jardim Água Boa, oferta o ensino integral aos alunos do nível médio. A reportagem não conseguiu levantar o número de estudantes atendidos. 

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