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DOURADOS VENEZUELANA

Distantes de casa, gerações dividem expectativas de retorno à Venezuela

13 agosto 2019 - 09h51Por Vinicios Araújo

A crise na Venezuela já fez com que 4 milhões de pessoas deixassem o país para recomeçar a vida com uma nova perspectiva de futuro. Segundo relatório da ONU (Organização das Nações Unidas), 80% desses imigrante se refugiaram em países da América Latina, tendo o Brasil recebido cerca de 168 mil.

Por aqui, Dourados foi uma das cidades que acolheu esses refugiados no programa de interiorização do Governo Federal, a Operação Acolhida. Conforme o Dourados News mostrou ontem (12), o município foi o que mais recebeu no interior do País e o 2ª no ranking geral. 

Esta é a segunda matéria de uma série de reportagens que pretende abordar a migração venezuelana do norte do Brasil, na fronteira seca entre os dois países, a Dourados. Hoje, mostraremos como a mudança de uma geração à outra foi capaz de transformar a perspectiva do povo venezuelano e a esperança de um possível retorno para casa. 

O musicista César Augusto Quintero Cordero, 22, chegou ao Brasil em 8 de fevereiro e logo em seguida, dia 11, a Dourados. Ele veio na companhia da contabilista Raquel Iriani Daza do Morado, 44, do esposo dela e da filha do casal, Gênesis Raquel Morado Daza, 23. César e Gênesis são amigos desde criança e ambos optaram pelas artes como objeto de estudo e trabalho. 

A travessia para o Brasil foi tensa. Eles lembram que durante a viagem de ônibus foram abordados várias vezes pela polícia e pelo Exército Brasileiro. Essas paradas eram bastante temidas pelo risco de serem extorquidos ou impedidos de atravessar a fronteira. 

Na semana passada o Dourados News encontrou a família para conhecer a história deles e buscar compreender os principais desafios enfrentados em terras douradenses. 

Em Valência, cidade ao norte da Venezuela, César deixou os pais e os amigos. Ele afirma ter uma família muito grande, mas a maioria fora do país. Lá estudou licenciatura em artes, com ênfase em música, tinha uma banda e trabalhava como professor desde os 18 anos. 

Hoje a forma de contato do rapaz com os pais é por video-chamada, mas a qualidade da internet e a instabilidade de energia no território venezuelano faz com que esse contato seja cada vez mais prejudicado. 

“Eles me contam que a situação tá cada vez mais difícil. Falta dinheiro para comprar comida, falta eletricidade por dias, o que acaba estragando os alimentos. A convivência com as pessoas também é um problema”, relata o rapaz. 

Já Raquel, que ainda tem dificuldade de falar e compreender a língua portuguesa, conta que na Venezuela era proprietária de um restaurante. O negócio permaneceu aberto de 2008 a 2019. Ela relembra que no ano passado, a situação ficou difícil e inviável para fazer a manutenção das atividades do comércio. 


Ela é contadora pública licenciada e o marido técnico em administração. A imigrante relata que após o descontrole inflacionário da economia venezuelana, a única saída foi deixar o país e vir para o Brasil onde a irmã, Rosana Daza, já vivia. 

Em Dourados, Raquel e o esposo abriram um restaurante de comida internacional na região do Parque Alvorada, no entanto durou apenas três meses por falta de condições de manter o negócio. Agora o esposo dela trabalha em um comércio de madeiras da cidade. 

“Eu deixei tudo para trás. Minha casa, minhas coisas, meu restaurante. Se eu pudesse traria tudo pra cá, tudo”, disse ao Dourados News estampando sorriso para disfarçar a emoção nos olhos. Ela tem duas filhas, Gênesis e outra jovem mais nova que está morando em Apucarana, no Paraná.

Questionada sobre a expectativa para os próximos anos, Raquel só demonstra um desejo de recomeçar sem abandonar nada do que já construiu na Venezuela. 

“Próximos anos? Próximos anos é muito tempo. Eu agora quero que a minha filha vá estudar, que ela trabalhe, quero conseguir um emprego em algum restaurante, independente da minha profissão, sei que é preciso alguns processos para exercer a minha formação. Mas lá eu limpava, cuidava, cozinhava, era meu negócio. Posso fazer aqui também e para o negócio de outros. Quero que meu esposo se sinta feliz no trabalho também”, afirma. 

Gênesis e César têm dado aulas de música em uma academia no Parque Alvorada, mas disseram desejar investir na carreira. A jovem conta que gostaria de cantar, mas se dispõe a qualquer atuação porque quer ajudar os pais nas contas de casa. 

“Se eu não consigo fazer coisas relacionada à minha arte, eu preciso buscar outras coisas, sem problema nenhum. Estamos esperando nosso diploma ainda na Venezuela, mas é um processo muito lento por conta da situação por lá. Meu desejo é tentar fazer o melhor que eu puder aqui”, disse. 

Ela e César pretendem ir para São Paulo/SP em breve, ao encontro de amigos. A intenção é conhecer a cidade e, se possível, ficarem por lá na busca por mais oportunidades. 

O DESEJO DE VOLTAR

Questionados sobre o desejo de retornar para a Venezuela, a família dividiu as expectativas. De uma geração para outra, não são encontrados motivos suficientes para voltar e recomeçar a vida por lá. 

Para Raquel, o desejo é ver o país alinhado de novo. “Eu tenho saudade do meu país. Se lá fosse como era antes eu não saía nunca. O jeito das pessoas, a forma de se comunicar, os rostos, os costumes, aquilo que o povo venezuelano é, aqui eu não consigo encontrar. Não porque o povo brasileiro é ruim, mas é porque é diferente. As pessoas não são iguais. Essa forma de ser do venezuelano é maravilhoso. Eu tenho saudade do que a Venezuela era”, disse emocionada. 

Ela conta que o marido também sente muita falta de casa e que nos primeiros meses em território brasileiro ele acabou ficando bastante deprimido.

“Ele queria voltar, mas eu disse: ‘ei, voltar para quê? Não tem o porquê voltar’. E realmente não tem. A nossa família está aqui. O nosso restaurante não tem capital para tocar o negócio. O que vai acontecer amanhã eu não sei, se eu vou voltar. As minhas filhas estão aqui e se elas não estão lá, o que eu vou fazer lá?”, afirmou.

Apesar disso, a contadora diz sonhar com a possibilidade de pisar de novo na terra que cresceu e constituiu sonhos.

Contrário a isso, César relata ter crescido com o propósito de deixar o país logo que tivesse terminado o ensino médio. 

“Eu não tenho planos de voltar lá. Eu já queria mudar da Venezuela desde que era mais novo. Desde que o governo Chaves [Hugo Chaves] assumiu o poder minha mãe já me dizia que eu tinha que sair do país porque o que estava para vir seria muito ruim. Minha ideia era ir depois de terminar o ensino médio, mas meus pais ainda tinham condições de pagar meus estudos e aí eu terminei, com a ajuda de um tio. Eu cresci num país em decadência, cresci vendo pessoas morrendo perto da minha casa, com insegurança. Eu nunca vi essa Venezuela boa dos meus pais, da senhora Raquel”, disse. 

O jovem considera Dourados como um trampolim para o futuro. Ele quer ir para a Europa, onde ele avalia que as artes são bem mais valorizadas. “Na América Latina as pessoas gostam de música, gostam de desenhos, gostam de artes, mas não querem pagar por ela. Quero ir para a Europa e lá poder trabalhar com o que realmente amo”, finalizou. 

Fotos: Vinicios Araújo/Dourados News

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