06/02/2012 06h46 -
Presidente, rédeas nas mãos, por favor!
Waldir Guerra
Economistas e políticos comentam todo santo dia sobre a necessidade urgente de o governo investir na infraestrutura do país para baixar o custo Brasil. No começo do ano, Delfim Neto, um dos economistas brasileiros mais competentes fez um comentário no jornal Valor Econômico falando disso. “Profecias para 2012” era o nome do artigo dele.
Em seu artigo Delfim Neto não se ateve muito a projeções técnicas, mas ao final do seu comentário com muita felicidade disse: “Voltamos a insistir: 2012 não está escrito nas estrelas! Ele será o que nós, governo e a sociedade, soubermos fazer dele, se tivermos a coragem e a inteligência necessárias para enfrentar a “má alocação” de nossos fatores (públicos e privados) e promover políticas que aumentem simultaneamente, a oferta e a demanda globais, como é o caso, por exemplo, dos investimentos em infraestrutura que eliminem rapidamente gargalos produtores”.
Delfim bateu na mosca. Ele matou a charada. A presidente Dilma precisa aproveitar a maré boa do seu governo, pois enquanto os países ricos enfrentam uma baita crise, o Brasil continua navegando em águas bem tranquilas. Ela precisa investir em estradas. E não apenas em rodovias, mas especialmente em ferrovias.
A produção do Centro-Oeste que cresce de ano a ano; com dezenas de milhões de toneladas de grãos precisando alcançar os portos está usando a mesma e precária rodovia construída por Mario Andreazza na década de 70 do século passado. É inacreditável, para os estrangeiros, que o Brasil consiga transportar tamanha quantidade de cargas numa única estrada.
O resultado dessa deficiência? Claro, nem dá para se falar dos acidentes; das mortes; e das inúmeras outras perdas. Basta dizer que os produtos de exportação como a soja, por exemplo, têm seu custo aumentado em mais de 100 dólares por tonelada. Um desperdício; e tudo por falta de uma boa ferrovia. Tratando desse mesmo assunto a Folha de S.Paulo em seu editorial de 17/01 “Dilema Federal”, disse: “O governo se consome em tentar resolver só os problemas do dia a dia.
Em linguagem coloquial, vende o jantar para pagar o almoço. Não consegue encetar um programa estratégico capaz de dotar o Estado de gestão e planejamento de longo prazo que vá além da mera resistência à voracidade com que a burocracia e a classe política se lançam sobre os cofres públicos”. Pois é, enquanto Delfin Neto mostra à presidente o caminho a ser seguido neste começo de ano, o jornal mais lido e respeitado do Brasil diz que este governo não tem condições administrativas de iniciar um programa estratégico para isso. Uma pena!
Apesar de serem evidentes os argumentos do jornal paulista, alguns sinais otimistas que a presidente – não seu governo, mas ela própria – vem dando deixa, sim, em pessoas que teimam em ser otimista, como eu próprio, que seu governo vai se lançar na proposta do economista Delfin Neto.
Um sinal? Observe que o PAC, Projeto de Aceleração do Crescimento, foi lançado e ficou sob a administração direta dela, Dilma Rousseff. Ela tem, então, um amplo conhecimento nesse setor.
E mais: está ainda tentando se livrar da herança maldita recebida com o loteamento “de porteira fechada” dos seus ministérios que foi obrigada a manter no inicio do seu governo. A demora para se lançar de corpo e alma na proposta do Delfin é por não ter ainda conseguido emplacar a sua maneira própria de administrar, mas tudo leva a crer que ela vai tomar as duas rédeas em suas mãos.
Waldir Guerra * Membro da Academia Douradense de Letras; foi vereador, secretário do Estado e deputado federal.
