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Um flagelo chamado desemprego

31 maio 2011 - 13h32

O Mulato João da Silva, morador no Parque das Nações 2º Plano achava que o desemprego era uma estatística do IBGE, um dado abstrato anunciado no 'DOURADOS NEWS', uma espécie de bolsa de valores dos pobres subindo e descendo enquanto abria mais uma latinha de cerveja, num barzinho quase na divisa coam o Jockey Clube.

Pensava que o desemprego era como aquelas desgraças que só atingem os outros e servem para cada um se sentir confortável e quentinho no próprio canto - seu posto de trabalho, seu lugar. Sempre imaginava que o desemprego só atingia os que não tivessem a quem recorrer. Foi então que seu irmão Benedito ficou desempregado. Assim como quem adoece, sem mais nem menos.

Privatiza-se um banco, demitem-se os funcionários e lá fica um sujeito com família de costas para o futuro e de frente para o passado. Todos os desempregados se tornaram para ele, num segundo, tão concretos, tão universais, tão familiares. Solitários, eles olham a vastidão do mundo e se perguntam: por onde começar? Por fim, saem a esmo. São tantas as portas. E todas se fecham. Em todos os lugares, falta um papel, uma habilidade, uma atualização, uma língua, uma recomendação, um detalhe... João sempre fora contra pistolões, mas, muito constrangido, decidiu falar com homens importantes, aos quais tinha algum acesso, para ajudar seu irmão. Gaguejou com todos. Chegou até o fim. Coitado do João!

Falou com o poder político, com o poder econômico, com o poder Executivo, com o Legislativo, com o quarto poder. Falou com o grande e com o pequeno empresário. Todos foram gentis. Todos baixaram os olhos. Todos lhe disseram frases de apoio e de estímulo. Nenhum prometeu alguma coisa. Quando não lhe restava mais nada, queixou-se ao capo. Mas o poder paralelo também nada podia fazer.

Voltou para casa e, ouviu no rádio um economista do FMI, ex-consultor de um grande banco, defendendo o corte de funcionários públicos. Compreendeu que o Estado deve resolver os seus problemas aumentando os da sociedade. Ninguém ficará desempregado, dizia o expert, se falar inglês, dominar informática, atualizar o CV, tiver cursos no exterior e preparar-se para o amanhã.

Fácil. João virou mala. Tem gente andando de lado para não o ouvir falar de desemprego. Quis escrever a Presidente Dilma, por conta do anúncio dos 10 milhões de empregos. Desistiu. Entendeu que, se a Califórnia tem um exterminador do futuro, o Brasil tem muitos exterminadores do próprio passado. Resta a Mega-Sena.

O crioulo João da Silva retornou para sua humilde residência, cantarolando uma velha canção do Geraldo Vandré, resgatando um pouco dos sonhos do passado, tentando encontrar forças para fazer a hora, e não esperar acontecer, continuando assim a alimentar a esperança de pelo menos continuar tendo equilíbrio, para não se perder nos labirintos das falsas promessas e, não ver ruir e cair por terra o que ainda resta de suas convicções e seus ideais de um Brasil justo, fraterno e menos desigual.

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