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Se Deus é bom, por que...?

27 maio 2011 - 08h08

No dia 21 de abril, sexta-feira santa, a emissora de televisão italiana ‘RaiUno’ convidou o Papa Bento XVI a participar do programa “À sua imagem”, respondendo a perguntas feitas por telespectadores de vários países. A entrevista durou uma hora e meia, e a maior parte do tempo foi dedicada ao sofrimento humano: quatro das sete questões se referiram explicitamente a ele.

A primeira foi dirigida por uma menina japonesa de sete anos que, diante do terror sofrido por seu país ante os terremotos e tsunamis, perguntou ao Papa: «Tenho muito medo, porque a casa onde eu me sentia segura, desabou. Muitas crianças da minha idade morreram. Por que as crianças precisam passar por tamanha tristeza?».

Bento XVI reconheceu que «não temos respostas, mas sabemos que Jesus sofreu com vocês. Nestes momentos, é importante lembrar que Deus nos ama, ainda que pareça que se esqueça de nós». Recordando a solidariedade e a ajuda manifestadas por pessoas do mundo inteiro, acrescentou: «Um dia, eu compreenderei que esse sofrimento não é vazio, não é inútil, mas, pelo contrário, atrás dele, há sempre um projeto de amor. Nada acontece por acaso».

A segunda pergunta foi formulada por uma mulher italiana, cujo filho está em estado vegetativo há um ano: «Santidade, a alma do meu filho abandonou o seu corpo – visto que ele está totalmente inconsciente – ou ainda continua nele?». Bento XVI respondeu com uma comparação: «A situação é semelhante à de um violão que, por ter as cordas rompidas, não pode ser tocado. Da mesma forma, por assim dizer, o instrumento do corpo é frágil e vulnerável, e a alma não pode tocar, mas fica sempre presente».

Um grupo de jovens de Bagdá interpelou o Papa sobre a perseguição dos cristãos no Iraque: «Como podemos ajudar a nossa comunidade cristã a reconsiderar a vontade de ir para outros países e convencê-la de que emigrar não é a única solução?». Renovando seu apoio aos cristãos e muçulmanos do país, o Santo Padre afirmou que a raiz do problema é «uma sociedade em profundo estado de dilaceração. É preciso reconstruir a consciência de que, na diversidade, todos têm uma história e um projeto comum».

A quarta pergunta veio da Costa do Marfim. Foi feita por uma mulher muçulmana, que se referiu à complicada situação política de seu país, dividido entre cristãos e muçulmanos: «Como embaixador de Jesus, o que o Sr. aconselharia ao nosso país?». O Papa recordou a necessidade de orar pela população e lembrou algumas ações concretas da Santa Sé: «Pedi ao cardeal Tuckson, Presidente do Conselho Justiça e Paz, que vá à Costa do Marfim e tente mediar com os diferentes grupos, para facilitar um novo começo. O caminho é renunciar à violência e reiniciar o diálogo para juntos encontrar a paz, através de uma nova atenção recíproca, de uma nova disposição a se abrir uns aos outros».

No mesmo dia, Frei Rainiero Catalamessa, pregador pontifício, assim se referiu à resposta do Sumo Pontífice à menina japonesa: «Terremotos, furacões e outros desastres que atingem inocentes e culpados não são castigo de Deus. Eles nos lembram que não são suficientes a ciência e a técnica para nos salvar. Se não nos impusermos limites, nós mesmos nos tornamos – e é o que está acontecendo hoje – a ameaça mais grave. Mas os terremotos podem ser benéficos, como aconteceu na ressurreição de Jesus: “Eis que houve um violento tremor de terra: um anjo do Senhor desceu do céu, rolou a pedra e sentou-se sobre ela” (Mt 28, 2). É sempre assim: a cada terremoto de morte sucede um terremoto de ressurreição e de vida!»

Pelo menos uma vez preciso dar razão a Nietzsche e citar uma sua sentença lapidar: «Quem tem “por que” viver, suporta quase qualquer “como”». É a maneira como nos posicionamos diante do sofrimento que divide os seres humanos em “vitoriosos” ou “perdedores”. É também a conclusão a que chega Viktor Frankl, em seu livro “Em busca de sentido”, depois de passar três anos num campo de extermínio nazista: «Conhecemos o ser humano como, talvez, nenhuma geração humana antes de nós. O que é, então, um ser humano? É o ser que sempre decide o que ele é. É o ser que inventou as câmaras de gás; mas é também aquele ser que entrou nas câmaras de gás, ereto, com uma oração nos lábios».



*Dom Redovino Rizzardo, cs

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