
Desde os primórdios do início da civilização, o fogo é visto como um artefato constituído de poderes, para alguns considerados sobrenaturais. Afinal, de onde surgiu ele, o fogo? Do manuseio de duas lascas de pedras, na Idade Média, quando o homem descobriu que seria mais cômodo consumir a carne animal cozida, ao contrário do bicho cru e pingando sangue? Ou da necessidade de defesa?
Aliás, esses tais poderes sobrenaturais do elemento fogo, ganharam forte influência na formação das civilizações indígenas, sobretudo no processo de educação das crianças. Os ancestrais delas ensinavam que era muito perigoso o contato com o fogo. Mesmo assim, todo processo de “iniciação” para a completa integração em comunidades se dava por intermédio de rituais onde, inevitavelmente, o fogo era elemento chave.
Assim, surgiram termos como “batismo de fogo”, por exemplo, para traduzir o sacrifício a que uma pessoa deve se submeter para poder galgar um novo estágio, de purificação da alma ou mesmo de elevação simplesmente.
Nesse contexto, é preciso reconhecer que as civilizações indígenas têm muito a nos ensinar. Porém, é preciso que o aprendiz esteja disposto a receber esse ensinamento, sob pena de acabar mais sem rumo ainda, uma vez que todas as práticas concebidas em exagero acabam por se tornar mais nocivas do que saudáveis.
Ainda sobre o aprendizado indígena, conta-se que os mais antigos utilizavam o fogo como instrumento educativo na formação dos filhos. Quando diziam, por exemplo, que era arriscado “brincar com fogo”, estavam a ensinar que os poderes das chamas deveriam ser respeitados, até como forma de se impor limites para os mais afoitos.
O saber queima. Essa observação, aliás, reveste-se de significado capital, uma vez que aqueles a quem se proporcionou a chance de aprender pelo poder do fogo estarão, para sempre, “marcados” por esse ensinamento.
Assim, quando os mais velhos diziam para as crianças que não deveriam se aproximar do fogo, uma vez que estariam sujeitas a sofrerem queimaduras, e estas assim mesmo insistiam, era regra geral “permitir” que a ousadia se consumasse. A queimadura, nesse caso, seria a lição do duro aprendizado. Para sempre.
As civilizações evoluem, felizmente. Entretanto, nem sempre os membros dessa mesma civilização conseguem acompanhar esse processo evolutivo. E há, ainda, os que se arriscam a seguir brincando com fogo, desobedecendo regras naturais de ensinamento dos mais experientes, como se a tudo pudessem, independente dos riscos e consequências dessa temeridade.
Por isso, quando se diz que determinada pessoa é despreparada, ou não está pronta para o exercício de tal função, pode-se observar que, invariavelmente, essa pessoa acabou, de uma forma ou outra, herdando o ímpeto da ousadia infantil indígena, e um dia, quando lhe disseram que era perigoso brincar com fogo, ela, ao contrário, optou pelas chamas.
E, chamuscada, segue persistindo na teimosia.
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